Erros refractivos não compensados – reflexão e dados relevantes

Erros refractivos não compensados – reflexão e dados relevantes

A taxa de renovação de óculos graduados é assustadoramente alongada no tempo, sendo, em Portugal, os 4/5 anos um valor perfeitamente enquadrado com a realidade. Teremos nós a noção da alteração visual que o nosso sistema pode ter nesse período? Sabia que, a nível mundial, mais de 153 milhões de pessoas sofrem de incapacidade visual devido a erros refractivos não compensados?

Os últimos dados evidenciados a nível mundial são assustadores, especialmente no que diz respeito à cegueira da população devido a falta de correcção óptica. Para nos situarmos, a OMS define baixa visão quando a acuidade visual é menos de 6/18 mas igual ou melhor do que 3/60, ou uma correspondente perda de campo visual para menos de 20º, no melhor olho com a melhor correcção possível. Define, também, a cegueira como uma acuidade visual abaixo dos 3/60 ou correspondente perda de campo visual menor do que 10º, no melhor olho com a melhor correcção possível. Incapacidade visual inclui tanto a cegueira como a baixa visão.

Segundo a OMS, 80% de todas as causas de deficiência visual são evitáveis ou podem ser tratáveis mediante prevenção adequada e atempada. Dados apresentados em 2019 evidenciam que aproximadamente mil milhões de pessoas, em todo o mundo, sofrem de problemas visuais evitáveis ou que ainda não foram adereçados. Estes números sobem para 2,7 mil milhões quando falamos da população com má visão por má correcção ou nenhuma correcção visual.

Em 2002, mais de 161 milhões de pessoas em todo o mundo eram incapacitadas visuais, devido a patologias (excluindo os erros refractivos não compensados) sendo que 124 milhões tinham baixa visão e 37 milhões sofriam de cegueira. Em 2006 foram revelados mais dados, desta vez incluindo incapacidade visual devido a erros refractivos não compensados, somando mais 153 milhões aos números anteriores. Destes, 13 milhões são crianças (entre os 5 e os 15 anos de idade), 45 milhões são adultos trabalhadores (entre os 16 e os 49 anos de idade) e mais de 90 milhões são pessoas que já passaram a barreira dos 50. Neste total não está estimada a prevalência da presbiopia por compensar, que é desconhecida a nível mundial, e contabilizam-se, ainda, 45 milhões de cegos. De referir que o grupo de pessoas com mais de 50 anos representam aproximadamente 82% do total de pessoas com incapacidade visual, apesar deste grupo etário representar, a nível global, cerca de 20% da população, com tendência a aumentar devido ao envelhecimento populacional. As crianças representam um grupo etário bastante menor, mas não deixam de ser um grupo prioritário de atenção, uma vez que, estima-se, cerca de 700 mil casos de cegueira infantil poderiam ser evitados. Em relação aos factores de risco mais relevantes, encontram-se, também, o género, sendo o feminino com maior prevalência de risco devido à maior esperança de vida e, em sociedades menos desenvolvidas, devido à dificuldade de acesso a serviços primários de saúde. Noventa por cento dos casos, a nível mundial, encontram-se em países em desenvolvimento, mas existem outros factores que têm influência directa neste tipo de doenças. São eles o fumo do tabaco, a exposição a radiação ultravioleta, deficiência de vitamina A, entre outros.

De facto, estes números merecem reflexão e atenção especial pois demonstram que a preocupação com os nossos olhos não é (aparentemente) de particular importância como deveria ser. Todos temos cuidados com a alimentação, com os cremes protectores dos UV’s no Verão, o colesterol elevado, o controlo da tensão arterial, o exercício físico, etc., mas muito poucos são aqueles que fazem check-ups regulares à sua visão. Em Portugal, a taxa de renovação de óculos e lentes oftálmicas anda à volta dos 4/5 anos, quando deveria ser anual, ou, quanto muito, bianual.

Tendo em conta os dados revelados, não seria vital para a saúde ocular da população um alerta generalizado para os efeitos nocivos da radiação ultravioleta, da luz azul-violeta nociva, da necessidade de se efectuarem rastreios e consultas regulares com especialistas, de rastreios visuais em crianças em idade pré-escolar e escolar e da utilização de equipamentos que ofereçam características intrínsecas de protecção e segurança aos portadores? Obviamente que sim. E depois de lerem estes dados, compreenderão a necessidade de alertar a população para renovar mais rapidamente a visita aos especialistas e aos ópticos.

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